Neuroestimulador Medular - Neuromodulação
 
 
O uso do neuroestimulador medular (NM) no controle da dor está fundamentado na teoria do portão da Dor (“Gate control”) de Melzack e Wall (1965). Os mecanismos de controle da dor com o sistema de NM são variados (Oakley e Prager 2002). Em 1967 Shealy e colaboradores descreveram pela primeira vez o alívio da dor crônica intratável, através de um implante de eletrodo sobre a medula. Este eletrodo funcionava com estímulos elétricos a base de radiofreqüência e foi utilizado por via subaracnóide em um paciente com câncer (Shealy et al. 1967). Desde o trabalho inicial de Shealy o sistema de neuroestimulação medular evoluiu consideravelmente e atualmente se estuda a morfometria medular para melhor definição dos sistemas de neuromodulação (Feierabend 2002). As indicações iniciais para tratamento exclusivamente da dor crônica foram ampliadas e a indicação do tratamento com o Neuroestimulador Medular incluem atualmente também o tratamento de outras patologias, como distúrbios do movimento, doença vascular periférica e coronariopatias (Di Pastenna et al. 2000, Bueno et al. 2001, Kay et al. 2001).

A introdução do método da neuroestimulação foi uma significativa mudança na abordagem do tratamento cirúrgico da dor crônica (Siegfried e Lazorthes 1982). O tratamento cirúrgico da dor crônica baseava-se até a introdução da neuroestimulação em métodos neuroablativos (destrutivos). O conceito da neuromodulação do sistema nervoso foi introduzido por Wall e Sweet em 1967 (Long 1998).

A maior parte das condições dolorosas que apresentam melhora com o uso do sistema de neuroestimulação medular (NM) podem ser classificadas em dores neuropáticas ou dores neurogênicas. Ambas as condições estão associadas com distúrbios da sensibilidade periférica provocadas por alterações funcionais de fibras aferentes ou por alterações centrais secundárias (dores por destruição ou alteração do tecido nervoso). A desaferentação ou deaferentação representa uma perda significativa de fibras nervosas aferentes (que levam os estímulos ao cérebro) levando a situações clínicas de dor de grande intensidade normalmente denominadas de dores neuropáticas (Long 1998).

A dor que tem origem em processos patológicos em tecidos diferentes do tecido nervoso tem menos chance de apresentar resposta positiva ao implante do sistema de NM. Esta dor é conhecida como nociceptiva e envolve a ativação de receptores nociceptivos específicos. Exemplos de dores nociceptivas são as dores de origem miofascial, do sistema ósseo ou que tem uma origem inflamatória. Estas dores não respondem bem ao uso do sistema de NM.

A dor central de origem supra-espinhal (síndrome talâmica) também não responde bem ao implante do sistema de NM. A estimulação cerebral profunda parece ser uma alternativa de tratamento para dor neuropática central supra-espinhal (Tasker e Vilela Filho 1995, Blond et al. 2000). O sistema de estimulação cortical (do cérebro) epidural parece ser a melhor alternativa para dores neurogênicas centrais supra-espinhais, apesar de suas indicações ainda não estarem totalmente definidas (Long 1998, Drouot et al. 2002).

A análise dos trabalhos de longo prazo indica uma significativa melhora no quadro de dor inicial. A melhora acontece principalmente nos casos de dor neuropática e em especial aquelas associadas a múltiplas cirurgias na coluna vertebral (Siegfried e Lazorthes 1982, Barolat 1993, North et al. 1993, Lazorthes et al. 1995, Devulder et al. 1997, Long 1998).

O custo do sistema de NM é maior no curto prazo, mas a medida que o tempo passa o custo final é menor, com melhor relação custo-benefício quando o sistema de NM é comparado com outros tratamentos (Kupers et al. 1994). Na Bélgica houve retorno ao trabalho de 31% de pacientes com dores neuropáticas (n = 155) (Van Buyten et al. 2001). Os custos do sistema de NM são menores que outros tratamentos (Devulder et al. 1997) e nos casos de eficiência comprovada o sistema de NM se paga em 2,1 anos (Bell et al. 1997).

Estudos randomizados prospectivos demonstram a superioridade do sistema de NM no tratamento das dores associadas com a síndrome pós-laminectomia (várias cirurgiass na coluna vertebral) sobre outros tratamentos neurocirúrgicos (North et al. 1994). Existe melhora acima de 50% nas queixas de dor, de acordo com a escala visual analógica (EVA) em pacientes bem selecionados (Kavar et al. 2000). O sistema de NM é economicamente superior a qualquer outro tratamento na abordagem terapêutica da distrofia simpática reflexa. A medicina baseada em evidências indica o bom resultado do tratamento com a NM, de acordo com estudo randomizado e prospectivo (Kemler e Furnee 2002).

O sistema de NM funciona eficaz e melhor principalmente no controle da dor. A dor relacionada com a síndrome de falência da coluna vertebral, pós-múltiplas cirurgias na coluna vertebral (“failed-back syndrome” – síndrome pós-laminectomia) é que a melhor melhora o sistema de NM (Barolat 1993, Lazorthes et al. 1995, Long 1998, Seagal et al. 1998). A dor secundária a esclerose múltipla, doença vascular periférica, distrofia simpática reflexa e polineuropatia diabética respondem bem ao sistema de NM. As dores relacionadas com lesão de cauda eqüina, dor do paraplégico e dores de membro fantasma não apresentam boa resposta ao sistema de NM (Lang 1997), apesar de existirem relatos de melhora de espasticidade com o sistema de NM (Pinter et al. 2000).

Nos casos em que a dor tem origem a partir da região pré-ganglionar da fibra nervosa (avulsão do plexo braquial e herpes zoster), a NM é a melhor alternativa no controle da dor segudio da estimulação cerebral profunda (Lazorthes et al. 1995, Kim et al. 2001).

As complicações e/ou necessidade de troca dos elementos do sistema de NM podem ocorrer, entretanto a resolução das mesmas é relativamente simples e não implica em desenvolvimento de tolerância ou perda de eficácia da neuroestimulação (Barolat 1993, Holsheimer 1997, Loge et al. 2002). Em casos de infecção que determinam a retirada do sistema de NM, o sistema pode ser reimplantado após a resolução do processo infeccioso (Van Buyten et al. 2001). O desenvolvimento de reações alérgicas aos componentes do sistema de NM é raramente observado (Ochani et al. 2000).

Mesmo pacientes que estão envolvidos em questões judiciais apresentam melhora de seu quadro inicial de dor e apresentam os mesmos resultados que pacientes que não estão envolvidos em questões judiciais (Burchiel et al. 1995, Nelson et al. 1996, Kumar et al. 1998, Van Buyten et al. 2001). Estudo prospectivo não demonstrou evidências que indiquem que os testes psicológicos são fatores decisivos na escolha do paciente a receber o sistema de neuroestimulação medular. A experiência clínica parece ser o fator determinante na escolha do paciente (North et al. 1996), entretanto fatores psicológicos podem ser analisados e contribuem de modo não significante na escolha do paciente (Dumoulin et al. 1996).

Sistemas automatizados e modelos mais modernos melhoraram ainda mais a relação custo-benefício do sistema de NM (Alo e Holsheimer 2002, North e Wetzel 2002, , North et al. 2002, Straus 2002, North et al. 2003). O sistema de NM dever ser colocado por profissionais dedicados ao tratamento da dor e existe uma correlação direta entre resultado final e a experiência do profissional (Kupers et al. 1994, Long 1998, Van Buyten et al. 2001, Spincemaille et al. 2000). A possibilidade de uso do neuroestimulador medular no tratamento de pacientes com doenças arteriais obstrutivas dos membros inferiores tem sido revista recentemente e parece ser uma ótima alternativa de tratamento em pacientes com doenças arteriais graves que podem estar em risco de perder algum membro (Lindenroth e Meyerson 2000, Spincemaille et al. 2000).

O uso de sistema de NM em pacientes com síndromes regionais complexas dos membros superiores (dores complexas) tem eficácia estatisticamente significante, com melhora da dor em mais de 53% em pacientes com 36 meses de acompanhamento (Calvillo et al. 1998). Recentes trabalhos têm demonstrado a possibilidade de novos usos e perspectivas para o tratamento com a neuromodulação. Patologias específicas, como a síndrome das pernas “irrequietas” noturna (“painful legs and moving toes syndrome”) melhoraram com o sistema de NM (Takahashi et al. 2002), bem como o tratamento da isquemia mesentérica (Ceballos et al. 2000).

O sistema de NM pode ser empregado em alguns casos de pacientes com lesões de nervos periféricos com dores por desaferentação (Ebel et al. 2000). O sistema de NM pode ser empregado também na Urologia em quadros de retenção urinária ou de cistite intersticial(Fowler et al. 2001).

A neuromodulação parece encontrar cada vez mais emprego no tratamento de diversas patologias. Exemplo disto são os relatos de aumento de fluxo sanguíneo cerebral com o uso do sistema de NM na região cervical (Sagher e Huang 2000) e o emprego do NM para tratamento preventivo do vasoespasmo cerebral devido a ruptura de aneurisma cerebral (Takanashi e Shinonaga 2000).


• Alo, KM, Holsheimer, J: New trends in neuromodulation for the management of neuropathic pain. Neurosurgery 50(4): 690-703 (2002) Aglio@sbcglobal.net

• Barolat, G: Experience with 509 plate electrodes implanted epidurally from C1 to L1. Stereotact Funct Neurosurg 61(2): 60-79 (1993)

• Bell, GK et al.: Cost-effectiveness analysis of spinal cord stimulation in treatment of failed back surgery syndrome. J Pain Symptom Manage 13(5): 286-295 (1997)

• Blond, S et al.: [Neurostimulation in the treatment of chronic pain]. Neurochirurgie 46(5): 466-482 (2000) sblond@chru-lille.fr

• Bueno, EA, Mamtani, R, Frishman, WH: Alternative approaches to the medical management of angina pectoris; acupunture, electrical nerve stimulation and spinal cord stimulation. Heart Dis 3(4): 236-241 (2001)

• Burchiel, KJ et al.: Prognostic factors of spinal cord stimulation for chronic back and leg pain. Neurosurgery 36(6): 1101-1111 (1995)

• Calvillo, O et al.: Neuroaugmentation in the treatment of complex regional pain syndrome of the upper extremity. Acta Orthop Belg 64(1): 57-63 (1998)

• Ceballos, A. et al.: Spinal cord stimulation: a possible therapeutic alternative for chronic mesenteric ischaemia. Pain 87(1): 99-101 (2000)

• Devulder, J et al.: Spinal cord stimulation: a valuable treatment for chronic failed back surgery patients. J Pain Symptom Manage 13(5): 296-301 (1997)

• Di Pastenna, A et al.: SCS in intractable angina. Minerva Anestesiol 66(11): 825-827 (2000)

• Drouot, X. et al.: The antalgic efficacy of chronic motor cortex stimulation is related to sensory changes in the painful zone. Brain 125(7): 1660-1664 (2002)

• Dumoulin, K et al.: A psychoanalytic investigation to improve the success rate of spinal cord stimulation as a treatment for chronic failed back surgery syndrome. Clin J Pain 12(1): 43-49 (1996)

• Ebel, H. et al.: Augmentative treatment of chronic deafferentation pain syndromes after peripheral nerve lesions. Mini Invasive Neurosurg 43(1): 44-50 (2000)

• Feierabend, HK et al.: Morphometry of human superficial dorsal and dorsolateral column fibers: significance to spinal cord stimulation. Brain 125: 11371149 (2002) h.k.p.feierabend@lumc.nl

• Fowler, JU et al.: Efficacy of sacral nerve stimulation for urinary retention: results 18 months after implantation. J Urol 165(1): 15-19 (2001)

• Holsheimer, J: Effectiveness of spinal cord stimulation int the management of chronic pain: analysis of technical drawbacks and solutions. Neurosurgery 40(5): 990-996 (1997)

• Kavar, B, Rosenfeld, JV, Hutchinson, A.: The efficacy of spinal cord stimulation for chronic pain. J Clin Neurosci 7(5): 409-413 (2000)

• Kay, AD et al.: Spinal cord stimulation – a long term evaluation in patients with chronic pain. Br J Neurosurg 15(4): 335-341 (2001)

• Kemler, MA, Furnee, CA: Economic evaluation of spinal cord stimulation for chronic reflex sympathetic dystrophy. Neurology 59(8): 1203-1209 (2002) kemlerm@mzh.nl

• Kim, SH, Tasker, RR, Oh, MY: Spinal cord stimulation for nonspecific limb pain versus neuropathic pain and spontaneou versus evoked pain. Neurosurgery 48(5): 1056-1064 (2001)

• Kumar, K et al.: Epidural spinal cord stimulation for the treatment of chronic pain – some predictors of success: a 15-year experience. Surg Neurol 50: 110-121 (1998)

• Kupers RC et al.: Spinal cord stimulation in Belgium: a nation-survey on the incidence, indications and therapeutic efficacy by the health insurer. Pain 54: 211-216 (1994)

• Lang, P: The treatment of chronic pain by epidural spinal cord stimulation – a 15 year follow-up; present status. Axone 18(4): 71-73 (1997)

• Lazorthes, Y et al.: [Chronic spinal cord stimulation in the treatment of neurogenic pain. Cooperative and retrospective study on 20 years of follow-up]. Neurochirurgie 41(2): 73-86 (1995)

• Linderoth, B, Meyerson, BA: Spinal cord stimulation in limb ischemia – time for revival ? European J Pain 4: 317-319 (2000)

• Loge, D et al.: The epidural fibrous sheath: a guide for the replacement of a spinal cord stimulation electrode. Reg Anesth Pain Med 27(4): 353-356 (2002) david.loge@rug.ac.be

• Long, DM: The current status of electrical stimulation of the nervous system for the relief of chronic pain. Surg Neurol 49(2): 142-144 (1998)

• Melzack, R, Wall, PD: Pain mechanisms: a new theory. Science 150: 971-979 (1965)

• Nelson, DV et al.: Psychological selection criteria for implantable spinal cord stimulators. Pain Forum 5(2): 93-103 (1996)

• North, RB et al.: Spinal cord stimulation for chronic, intractable pain: experience over two decades. Neurosurgery 32(3): 384-394 (1993)

• North, RB et al.: A prospective, randomized study of spinal cord stimulation versus reoperation for failed back surgery syndrome: initial results. Stereotact Funct Neuorsurg 62: 267-272 (1994)

• North, RB et al.: Prognostic value of psychological testing in patients undergoing spinal cord stimulation: a prospective study. Neurosurgery 39(2): 310-310 (1996)

• North, RB, Wetzel, FT: Spinal cord stimulation for chronic pain of spinal origin: a valuable long-term solution. Spine 27(22): 2584-2591 (2002) rnorth@jhmi.edu

• North, RB et al.: Spinal cord stimulation electrode design: prospective, randomized, controlled trial comparing percutaneous and laminectomy electrodes – part I: technical outcomes. Neurosurgery 51(2): 381-389 (2002) rnorth@jhmi.edu

• North, RB et al.: Automated patient-interactive, spinal cord stimulator adjustment: a randomized controlled trial. Neurosurgery 52(3): 572-580 (2003) rnorth@jhmi.edu

• Oakley, JC, Prager, JP: Spinal cord stimulation: mechanisms of action. Spine 27(22): 2574-2583 (2002) joshir@aol.com

• Ochani, TD et al.: Allergic reaction to spinal cord stimulator. Clin J Pain 16(2): 178-180 (2000) tochani@aol.com

• Pinter, MM, Gerstenbrand, F, Dimitrijevic, MR: Epidural electrical stimulation of posterior structures of the human lumbosacral cord. 3. Control of spasticity. Spinal Cord 38(9): 525-531 (2000)

• Sagher, O, Huang, DL: Effect of cervical spinal cord stimulation on cerebral blood flow in the rat. J Neurosurg 93(Suppl 1): 71-76 (2000) osagher@umich.edu

• Segal, R. et al.: Spinal cord stimulation revisited. Neurol Res 20(5): 391-396 (1998)

• Shealy, CN, Mortimer, JT, Reswick, J: Electrical inhibition of pain by stimulation of the dorsal column: preliminary clinical reports. Anesth. Analg. 46: 489-491 (1967)

• Siegfried, J, Lazorthes, Y: Long-term follow-up of dorsal cord stimulation for chronic pain syndrome after multiple lumbar operations. Appl Neurophysiol 45(1-2): 201-204 (1982)

• Spincemaille, GH et al.: Pain and quality of life in patients with critical limb ischaemia: results of a randomized controlled multicentre study on othe effect of spinal cord stimulation. ESES study group. Eur J Pain 4(2): 173-184 (2000) gspi@snch.azm.nl

• Spincemaille, GH et al.: Technical data and complications of spinal cord stimulation: data from a randomized trial of critical limb ischemia. Stereotact Funct Neurosurg 74(2): 63-72 (2000) gspi@snch.azm.nl

• Straus, BN: Chronic pain of spinal origin: the costs of intervention. Spine 27(22): 2614-2619 (2002) ngpcdhs@aol.com

• Takahashi, H et al.: Epidural cord stimulation for the treatment of painful legs and moving toes syndrome. Pain 96(3): 343-345 (2002) vh4y@asahi-net.or.jp

• Takanashi, Y, Shinonaga, M.: Spinal cord stimulation for cerebral vasospasm as prophylaxis. Neurol Med Chir (Tokyo) 40(7): 352-356 (2000)

• Tasker, RR, Vilela Filho,O: Deep brain stimulation for neuropathic pain. Stereotact Funct Neurosurg 65(1-4): 122-124 (1995)

• Van Buyten, J-P et al.: Efficacy of spinal cord stimulation: 10 years of experience in a pain centre in Belgium. European J Pain 5: 299-307 (2001) vanbuyten@skynet.be

• Wall, PD e Sweet, WH: Temporary abolition of pain in man. Science 155: 108-112 (1967)


 

Dr. Marcelo Ferraz de Campos

 
 fechar
   
   

Todos os direitos reservados a Marcelo Ferraz de Campo / Geradata Informática.
| Home | Quem Somos | Consultório | Tese | Certificado | Currículo | Artigos | Contato |