Há
uma certa ambigüidade no uso da palavra “sucesso”.
Algumas vezes a vinculamos somente à fama e ao dinheiro.
Hoje, nesta conversa, quero considerar o uso do termo sucesso
no estrito sentido que defnem alguns dicionários: bom
êxito, resultado favorável, alcance de objetivos
e o conseqüente reconhecimento dos outros.
De outro lado, é impossível dar regras a alguém
sobre como cuidar da sua profissão e, conseqüentemente,
como armar o seu sucesso. O que se pode, hoje aqui, é
promover condições nas quais tenhamos a oportunidade
de pensarmos juntos e ponderarmos o que estamos fazendo e o
que deixamos de fazer.
Um dos pontos principais que gostaria de salientar é
que o real sucesso não é nada espetacular, mágico.
Não há nenhuma lâmpada de Aladim que possa
ser colocada a nosso serviço para consegui-lo; ele tem
de ser construído passo a passo, com muito esforço
e dedicação, e assim constituir uma progressão
linear. Também considero que sucesso não é
um fm em si mesmo, ao contrário, é um estado que
não tolera estagnação e que só sobrevive
pela constante mudança e aprimoramento do que se faz.
Mudar é, em geral, uma árdua, e às vezes,
assustadora tarefa, pois um balançar no que já
foi estabelecido pode gerar muita angústia e medo.
A meu ver, para se obter o sucesso, tão ambicionado,
mas pouco pensado, nós, profssionais, teríamos
de reunir um número de elementos que se misturam simultaneamente
numa misteriosa economia. São eles: gosto pelo estudo
profundo, tempo certo de surgir no cenário profssional
e muito amor.
A necessidade
do estudo constante e a troca de conhecimentos profssionais
são condições essenciais para se chegar
ao sucesso, mas não as únicas. Para aprender é
preciso ter humildade e, muitas vezes, ter a capacidade de desaprender
para aprender de novo.
Quantos
estudiosos existem no mundo que nunca tiveram ou se deram a
chance de aparecer. Aparecer exige coragem, garra e capacidade
de correr riscos. Ser um lutador pela vida profssional num campo
onde vida e morte estão sempre presentes não deixa
de constituir um tremendo desafo. Como diz o romancista Jack
London: “Preferiria ser um soberbo meteoro, com cada um
de seus átomos irradiando um brilho magnífco,
a ser um planeta adormecido. A função da vida
é de viver, e não de existir”.
A vida é
propriamente um afã de querer ser, uma antecipação
do futuro, essa preocupação que faz que o futuro
seja, ele, o germe do presente. Encontrar o seu caminho num
contexto de desacordos e diferenças entre colegas pode
gerar uma tensão criativa que impulsiona o crescimento
individual. Mas também é algo que pode ser imensamente
contagiante e infuenciar muitos que estarão por vir.
É quando o neurocirurgião se metamorfoseia no
educador.
Outro conceito
muito complexo do qual nos será útil pensar a
respeito é o tempo. Há vários sentidos
do termo tempo. Há o tempo interno e o tempo externo.
Quando o “nosso momento” entra em combinação
harmônica com o tempo. Há o tempo interno e o tempo
externo. Quando o “nosso momento” entra em combinação
harmônica com o do acaso que parece cumprir-se nesse abraço,
a que muitos chamam: boa sorte, destino, boa estrela e predestinação,
há a lei que faz que um germe forte e poderoso avance
até o óvulo que vem aberto a seu encontro. Na
verdade, não Shakespeare por meio de Hamlet: “Há
mais mistérios entre o céu e a terra do que pode
pensar nossa vã flosofa”.
No entanto,
não bastam apenas talento, determinação
e sorte; é preciso haver aquele desprendimento, fruto
do amor. O cérebro, esse ser misterioso, tão complexo
e pouco conhecido, precisa de muito amor para ser tratado e
descoberto. Mas amor também é um sentimento complexo
e o termo amor tem uma extensa variedade de signifcados. Torna-se,
pois, necessário defnir qual o sentido que se aplica
para o nosso tema de hoje. Amor ao que faz em termos profssionais
é um conglomerado de prazer, dedicação,
interesse ativo, honestidade e compromisso com a verdade. É
indispensável sentir o prazer de operar, atender o paciente,
saber mais sobre ele e acompanhá-lo nos meandros imprevisíveis
da recuperação.
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