Sucesso

Prof. Dr. Evandro de Oliveira

Discurso proferido durante o XXV Congresso Brasileiro de Neurocirurgia, Goiânia, GO
 
 

 

Há uma certa ambigüidade no uso da palavra “sucesso”. Algumas vezes a vinculamos somente à fama e ao dinheiro. Hoje, nesta conversa, quero considerar o uso do termo sucesso no estrito sentido que defnem alguns dicionários: bom êxito, resultado favorável, alcance de objetivos e o conseqüente reconhecimento dos outros.

De outro lado, é impossível dar regras a alguém sobre como cuidar da sua profissão e, conseqüentemente, como armar o seu sucesso. O que se pode, hoje aqui, é promover condições nas quais tenhamos a oportunidade de pensarmos juntos e ponderarmos o que estamos fazendo e o que deixamos de fazer.

Um dos pontos principais que gostaria de salientar é que o real sucesso não é nada espetacular, mágico. Não há nenhuma lâmpada de Aladim que possa ser colocada a nosso serviço para consegui-lo; ele tem de ser construído passo a passo, com muito esforço e dedicação, e assim constituir uma progressão linear. Também considero que sucesso não é um fm em si mesmo, ao contrário, é um estado que não tolera estagnação e que só sobrevive pela constante mudança e aprimoramento do que se faz. Mudar é, em geral, uma árdua, e às vezes, assustadora tarefa, pois um balançar no que já foi estabelecido pode gerar muita angústia e medo.

A meu ver, para se obter o sucesso, tão ambicionado, mas pouco pensado, nós, profssionais, teríamos de reunir um número de elementos que se misturam simultaneamente numa misteriosa economia. São eles: gosto pelo estudo profundo, tempo certo de surgir no cenário profssional e muito amor.

A necessidade do estudo constante e a troca de conhecimentos profssionais são condições essenciais para se chegar ao sucesso, mas não as únicas. Para aprender é preciso ter humildade e, muitas vezes, ter a capacidade de desaprender para aprender de novo.

Quantos estudiosos existem no mundo que nunca tiveram ou se deram a chance de aparecer. Aparecer exige coragem, garra e capacidade de correr riscos. Ser um lutador pela vida profssional num campo onde vida e morte estão sempre presentes não deixa de constituir um tremendo desafo. Como diz o romancista Jack London: “Preferiria ser um soberbo meteoro, com cada um de seus átomos irradiando um brilho magnífco, a ser um planeta adormecido. A função da vida é de viver, e não de existir”.

A vida é propriamente um afã de querer ser, uma antecipação do futuro, essa preocupação que faz que o futuro seja, ele, o germe do presente. Encontrar o seu caminho num contexto de desacordos e diferenças entre colegas pode gerar uma tensão criativa que impulsiona o crescimento individual. Mas também é algo que pode ser imensamente contagiante e infuenciar muitos que estarão por vir. É quando o neurocirurgião se metamorfoseia no educador.

Outro conceito muito complexo do qual nos será útil pensar a respeito é o tempo. Há vários sentidos do termo tempo. Há o tempo interno e o tempo externo. Quando o “nosso momento” entra em combinação harmônica com o tempo. Há o tempo interno e o tempo externo. Quando o “nosso momento” entra em combinação harmônica com o do acaso que parece cumprir-se nesse abraço, a que muitos chamam: boa sorte, destino, boa estrela e predestinação, há a lei que faz que um germe forte e poderoso avance até o óvulo que vem aberto a seu encontro. Na verdade, não Shakespeare por meio de Hamlet: “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que pode pensar nossa vã flosofa”.

No entanto, não bastam apenas talento, determinação e sorte; é preciso haver aquele desprendimento, fruto do amor. O cérebro, esse ser misterioso, tão complexo e pouco conhecido, precisa de muito amor para ser tratado e descoberto. Mas amor também é um sentimento complexo e o termo amor tem uma extensa variedade de signifcados. Torna-se, pois, necessário defnir qual o sentido que se aplica para o nosso tema de hoje. Amor ao que faz em termos profssionais é um conglomerado de prazer, dedicação, interesse ativo, honestidade e compromisso com a verdade. É indispensável sentir o prazer de operar, atender o paciente, saber mais sobre ele e acompanhá-lo nos meandros imprevisíveis da recuperação.

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Prof. Dr. Evandro de Oliveira - Sociedade Brasileira de Neurocirurgia-SBN
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