Predisposição
genética, dieta, alterações hormonais e
até mesmo privação de sono estão
entre as principais causas de uma doença muito mais freqüente
em crianças do que se imagina: a enxaqueca. Essa constatação
é de uma pesquisa realizada no Ambulatório de
Cefaléia na Infância do Hospital das Clínicas
da Faculdade de FMRP) da USP. O autor é o neurologista
Marco Antônio Arruda, um dos pioneiros no estudo das cefaléias
na infância do país.
Há quase duas décadas, em 1989, Arruda criou o
Ambulatório de Cefaléia na Infância, o primeiro
do gênero na América Latina. No ambulatório,
desenvolveu numerosas pesquisas conduzindo em 1994 sua dissertação
de mestrado. Em 1999, concluiu sua tese de doutorado, que consiste
no levantamento feito com 417 crianças e adolescentes
que sofriam de dor de cabeça.
Durante
mais de três anos, a partir do acompanhamento de meninos
e meninas, com idade entre 6 e 16 anos, que apresentavam queixas
recorrentes de dor de cabeça, o especialista constatou
que 94% tinham enxaqueca e apenas 1% dos avaliados apresentavam
problemas visuais, como, por exemplo, miopia e astigmatismo.
Problemas oftalmológicos se mostraram raros no ranking
de causas de cefaléia na infância”, afirma
Arruda. “A enxaqueca é hereditária. Mais
de 80% dos pais das crianças com a doença estudadas
na amostra também apresentavam enxaqueca.”
Segundo
a literatura atual, a enxaqueca é uma doença genética
que provoca alterações químicas no cérebro
que tornarão esse órgão mais sensível
a uma série de fatores internos e externos, que acabam
desencadeando as crises de dor de cabeça típicas
dessa doença. Entre os fatores externos destacam-se o
excesso de luminosidade, determinados alimentos (álcool,
chocolate, condimentos e derivados do leite), odores e esforço
visual. Como exemplos de fatores internos, o pesquisador cita
as emoções (tanto negativas quanto positivas),
a menstruação e as variações do
ciclo do sono (privação ou excesso de sono) “tão
freqüentes hoje em dia nas crianças e adolescentes”.
Dor breve
e pulsante – Os principais sintomas são dores concentradas
em um lado da cabeça, náuseas, vômitos,
palidez e maior sensibilidade à luz e barulho. “É
uma dor que pulsa, lateja e piora com o esforço físico.
Dessa forma, é muito comum a criança com enxaqueca
parar de pular ou correr na hora em que sente dor de cabeça.
Há indícios de que as crises costumam ser mais
breves na infância, com duração de meia
hora ou até menos”, descreve Arruda, orientando
que o melhor a fazer nesses momentos é colocar a criança
para descansar em um lugar bem ventilado, escuro e silencioso.
Segundo
as estimativas da Academia Brasileira de Neurologia, entidade
da qual o especialista é membro titular, a enxaqueca
atinge cerca de 18% da população do país.
“Na parcela infanto-juvenil, as pesquisas sobre o assunto
ainda são escassas, mas os dados epidemiológicos
computados no estudo do HC indicam que 12% dos meninos e meninas,
a partir dos 10 anos, têm predisposição
genética para o problema.”
Diretor
do Instituto Glia – Cognição e Desenvolvimento
de Ribeirão Preto, Arruda atua nas áreas de Neurologia
da Infância e Adolescência e de cursos de capacitação
profissional, tendo publicado, em 2006, um guia intitulado Levados
da breca, sobre crianças e adolescentes portadores do
Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade,
além da edição do livro Cefaléias
na infância e adolescência, em parceria com Vincenzo
Guidetti, lançado no fim do ano passado.
Publicado
no Jornal da USP nº 846, de outubro de 2008.