Será
que, como alguns santos, os cientistas fazem milagres? Muita
gente gostaria de ouvir “dor nunca mais...”, mas
por acaso os cientistas pretendem abolir todas as dores? Será
que o homem precisa da dor? A dor é a percepção
de uma experiência sensorial nociceptiva (noceo = nocivo),
com conotação (tonalidade) afetiva aversiva e
desagradável, oposta ao prazer. Mas não foi somente
o prazer (ou a ausência dele) que garantiu o desenvolvimento
e a sobrevivência de nossa espécie. É sempre
necessária uma estimulação sensorial forte
quando a nossa sobrevivência corre perigo. É preciso
um sinal que dê a percepção de que algo
está errado na relação entre o indivíduo
e o ambiente ou algo de anormal está ocorrendo em seu
corpo. Esta percepção de “algo errado”
foi selecionada por milhões de anos durante a evolução
das espécies. O desafio sempre foi sobreviver quando
as condições externas favoreciam o nosso desaparecimento.
Pelos acasos evolutivos, sem a Natureza dar saltos, os seres
vivos presentes neste nosso planeta desenvolveram mecanismos
de auto-proteção contra estímulos ambientais
nocivos. A nocicepção (percepção
do que causa dano) certamente foi fundamental para que os animais
aprendessem a viver e sobreviver em um ambiente inóspito.
É clássico o exemplo de crianças que, por
defeito genético, não sentem dor, tendo uma vida
extremamente problemática, morrendo precocemente.
O homem
sempre conviveu com a dor, mas também sempre tentou dominá-la.
Se é óbvia a contribuição das dores
agudas para a sobrevivência, é difícil apontar
um papel evolucionário positivo para as dores crônicas.
De uma forma
simplificada existem dois diferentes tipos de dor aguda: aquele
que está relacionado com o ambiente (alo-nocicepção,
alo = fora) e aquele relacionado com a percepção
de ocorrências em seu próprio organismo (proprio-nocicepção,
proprius = de si).
Os mecanismos
nervosos selecionados para a nocicepção ambiental
envolvem uma transmissão neuronal do estímulo
muito rápida (±120 m/s, ± 450 km/h) quando
comparados com os sistemas que transmitem os estímulos
proprio-nociceptivos originários de um tecido injuriado
(± 0,4 m/s, ± 1,5 km/h). O calor ou o frio intenso,
ou mesmo a picada de uma agulha, é rapidamente detectado
e reconhecido pelo organismo, que se protege do estímulo
nocivo. Como já mencionado anteriormente, a ausência
destas respostas poderia levar a uma lesão que colocaria
em cheque a vida do indivíduo.
Nós
vivemos, todavia, em um ambiente cujas agressões podem
ser menos dramáticas, mais lentas, porém não
menos perigosas. Uma bactéria ou um vírus entra
sorrateiramente em um tecido e se reproduz lentamente levando
a uma inflamação infecciosa aguda. Uma outra situação,
mais irreverente (talvez um erro em nossa evolução),
é quando o nosso organismo fabrica substâncias
contra nossos próprios tecidos, como, por exemplo, os
anticorpos responsáveis pelas doenças auto-imunes
(artrite reumatóide). O resultado, neste caso, é
uma resposta inflamatória em várias articulações.
Uma inflamação
pode ser resolvida por mecanismos biológicos ou com a
utilização da terapêutica medicamentosa.
Esta inflamação aguda, entretanto, pode persistir
e cronificar-se. Uma inflamação persistente ou
recidivante (crônica com períodos de agudização)
pode levar à destruição permanente dos
tecidos. Freqüentemente estes processos são dolorosos
e de difícil controle.
Uma resposta
tecidual inflamatória aguda é caracterizada pelos
famosos sinais cardinais: rubor, calor, tumor e dor. Pense numa
espinha nascendo no rosto, ou nas costas esbeltas de uma banhista
que se esqueceu ao sol. Aproxime a mão vagarosamente
da pele avermelhada (rubor) e sua mão perceberá
que ela está levemente mais quente do que a sua pele
normal. Agora seja chato! Dê uma cotucadinha na espinha
ou uma palmadinha nas sinuosidades da amiga. Mas cuidado! Você
sabe que após uma fraca queimadura de sol, basta um chuveiro
morno para causar dor (nocicepção inflamatória).
É que um tecido inflamado fica muito mais sensível
a estímulos que normalmente não produzem ou produzem
pouca dor. Este fenômeno é característico
da dor inflamatória e é devido à sensibilização
dos neurônios nociceptivos. A figura acima dá uma
informação enganosa. A dor inflamatória
não ocorre imediatamente após ou durante o estímulo
nocivo. A sensibilização dos nociceptores ocorre
pela ativação da “cascata de citocinas”,
que necessita de tempo para se instalar, pois é decorrente
de processos metabólicos neuronais.
Assim como
temos um sistema neurológico para conduzir as sensações
visuais e auditivas da periferia ao cérebro, as sensações
dolorosas (nocicepção) também têm
um complexo sistema de transmissão. Neste sistema há
mecanismos que amplificam ou inibem, no neurônio periférico,
a entrada do estímulo doloroso. Há também
mecanismos centrais associados à definição
da qualidade e aprendizado da dor, isto é, da percepção
e descrição da dor (vide abaixo). Embora os neurônios
centrais possam amplificar ou diminuir os sinais “dolorosos”,
o neurônio primário nociceptivo tem um papel fundamental
na dor inflamatória. Uma vez estimulado, eles geram e
conduzem o estímulo para a medula espinal, passando por
vários caminhos até chegar a algumas áreas
do córtex cerebral, onde a sensação nociceptiva
é detectada e analisada (processo de percepção).
O neurônio sensitivo primário faz a sua primeira
sinapse em regiões bem definidas (lâminas de Rexel)
no corno posterior da medula. Hoje, sabe-se que entre um neurônio
e outro existe uma fenda, desta forma o sinal neuronal tem que
“saltar” de um neurônio para o outro através
da chamada fenda sináptica. Raramente há condução
elétrica entre um neurônio e outro. A transmissão
na sinapse se dá através da liberação,
pelo terminal nervoso (dendrito), de substâncias (mediadores
primários e intermediários) que atuam nos receptores
do axônio do neurônio subseqüente. Entre os
mediadores mais importantes na medula espinal estão o
glutamato e as prostaglandinas.
Atualmente,
a consciência da experiência de sensação
da dor é entendida como uma função cortical.
O impulso nervoso sobe pela medula e atinge a parte basal do
cérebro, onde faz a segunda sinapse (relê talâmico).
Os sinais podem se dirigir diretamente para o córtex
(parietal anterior) ou estimularem o sistema nervoso neuro-vegetativo
(produção de sudorese, aumento de pressão
sanguínea e freqüência cardíaca etc).
Os estímulos nociceptivos também se dirigem para
o sistema límbico (amígdala), que define a tonalidade
afetiva da dor e é um dos sítios de ação
da morfina. Neste local você tem a sensação
mas não tem a percepção da dor: “a
dor não dói”. O estímulo finalmente
atinge a área parietal posterior, onde acontece a integração
da rede neuronal nociceptiva, ocorrendo, então, a percepção
(interpretação) da dor.
Os estudos
contemporâneos que permitem definir a localização
e o momento de chegada dos estímulos no córtex
baseiam-se na avaliação regional do fluxo sangüíneo
ou do incremento do metabolismo (aumento de consumo de glicose
ou atividade oxidativa) pelas células cerebrais, utilizando
o PET (Tomografia por Emissão de Pósitron) e fMRI
(Imagens Funcionais por Ressonância Magnética).
Estes métodos detectam dor aguda, porém não
detectam dor espontânea referida pelo paciente (ongoing
pain). Todavia, detectam a presença de distúrbios
neuro-funcionais de redes neuronais, associados à dor
crônica (p.ex., dor neuropática). Estímulos
nociceptivos constantes produzem imagens de intensidade variável
em diferentes indivíduos, mas com uma ordenada distribuição
temporal entre as áreas corticais. Há um retardo
dos sinais entre as áreas de detecção do
estímulo doloroso e aquelas relacionadas com sua percepção
(consciência).
Os animais
sentem dor? Como a dor envolve uma atividade subjetiva (percepção)
e capacidade verbal de descrição, não temos
a possibilidade de saber se os animais sentem dor. Eles apresentam
respostas fisiológicas ou comportamentais frente a estímulos
que inferimos serem semelhantes à dor humana. Assumimos
que tais respostas são devido a uma sensação
nociceptiva desencadeada pelos estímulos detectados e
transmitidos pelo sistema nervoso nociceptivo do animal. O grande
argumento de que esta hipótese é correta e relevante
vem da observação científica de que drogas
analgésicas no homem são antinociceptivas nos
animais. Da mesma maneira, drogas que são antinociceptivas
nos animais, freqüentemente são analgésicas
no homem.
As dores
proprio-nociceptivas podem ter três origens em nosso organismo:
a) de um tecido inflamado (dor inflamatória); b) devido
a uma disfunção fisiológica em um órgão
(dor visceral, p. ex. cólicas) ou c) em um nervo (dor
neuropática). A dor neuropática ocorre em um nervo
permanentemente lesado por um trauma físico, biológico,
inflamatório ou infeccioso (p.ex. a dor que ocorre após
uma infecção intensa por herpes, a chamada “dor
do nervo trigêmio”).
Um estímulo
nocivo externo ou um “corpo estranho” detectado
pelo tecido pode causar uma injúria tecidual. Nestas
circunstâncias ocorre uma inflamação. Durante
o processo inflamatório há mudanças no
cenário celular, com o surgimento de células de
“defesa”. Estas mudanças são conseqüências
da conversação (química) entre as várias
células locais. Os mediadores desta conversa, chamados
citocinas e quimiocinas, são liberados em seqüência,
em forma de cascata.
As substâncias
liberadas pelo desencadear do processo inflamatório promovem
a sensibilização do nociceptor permitindo, assim,
que o estímulo ative o nociceptor do neurônio inflamatório
periférico.
Podemos,
de forma simplificada, usar o funcionamento de uma campainha
(ou a buzina de um carro) para ilustrar algumas características
dos vários tipos de neurônios primários
nociceptivos.
O soar da
campainha seria o “transmitir a dor” e o botão
da campainha representaria os receptores localizados na membrana
dos neurônios sensitivos primários (nociceptores
distribuídos por todas as vísceras e tecidos do
organismo). Uma campainha é energizada eletricamente
(bateria neste caso) e o botão simplesmente interrompe
a corrente.
Quando se
aperta o botão, o circuito fecha (eletrifica o circuito)
e a campainha toca. Isto é, quando o nociceptor é
ativado, gera localmente um potencial de ação
que se transmite pelo neurônio até a medula, onde
o sinal é transferido para o segundo neurônio.
Os nociceptores
para detecção de estímulos ambientais obviamente
se apresentam em maior número na pele. As vias nervosas
da nocicepção ambiental (alo-nocicepção),
semelhantemente às campainhas, já estão
energizadas (bateria pronta). Basta um toque para que a campainha
soe, porém, o botão desta campainha é duro
de apertar (nociceptores de alto limiar). Na inflamação
ocorre sua sensibilização (hiperalgesia, alodinia
ou hipernocicepção). Nestas condições,
um estímulo que era pouco ou inefetivo passa a ser doloroso.
Há
um grupo de receptores que parecem ser os mais relevantes para
a dor inflamatória. São os chamados de receptores
silenciosos ou dormentes (sleeping nociceptors), que representam
30% dos nociceptores da pele. Estes não são ativados
mesmo com um estímulo forte, necessitando serem previamente
sensibilizados para sua ativação.
Para a campainha
inflamatória tocar, é necessário ativar
a bateria (daí, então, o botão pode fechar
o circuito e tocar a campainha). Os neurônios nociceptivos
inflamatórios primários (NNIP) estão “afuncionais”
ou com limiar muito alto (o botão da campainha é
duro de apertar!).
Os mediadores
secundários ou segundos mensageiros – presentes
no interior da célula neuronal – são responsáveis
pela fosforilação de canais localizados na membrana
celular, tornando os nociceptores funcionais.
No estado
sensibilizado dos NNIP, os mediadores ionotrópicos, presentes
no local da inflamação, conseguem ativar os nociceptores
mesmo em pequenas quantidades. Mas, talvez mais importantes
que os mediadores, são os estímulos mecânicos,
que em condições normais não produzem dor
e agora são capazes de causá-la (lembrem-se da
espinha no rosto e da queimadura de sol). Estes mediadores ativadores
dos nociceptores são denominados de mediadores primários
nociceptivos ionotrópicos. São ionotrópicos
porque a geração (potencial gerador) e a condução
(potencial de ação) do estímulo envolvem
fundamentalmente trocas iônicas, principalmente entre
Na+ e K+.
Um estímulo
nocivo causa uma injúria tecidual induzindo mudança
do cenário celular decorrente da liberação
de mediadores inflamatórios, que são basicamente
de 3 tipos: os mediadores nociceptivos “intermediários”
(MNI), os primários (MNP), e os segundos mensageiros
ou secundários (MNS). Os mediadores nociceptivos “intermediários”
(MNI) - citocinas e quimiocinas - originam se de células
locais ou migratórias, estimulando a liberação
de outros mediadores intermediários ou de mediadores
primários.
O esquema
acima ilustra observações experimentais. Uma inflamação
induzida por uma substância irritante chamada carragenina
ou por uma toxina bacteriana (lipopolisacarídeo –
LPS) estimula as células residentes do tecido a liberarem
uma citocina denominada TNF-? (Fator de Necrose Tumoral) que,
por sua vez, induz a liberação de outras duas
citocinas: interleucina 1-Beta (IL-1?) e Interleucina-8 (IL-8).
A IL-1? promove a ativação de uma enzima denominada
ciclooxigenase (COX) responsável pela produção
de prostaglandinas. A IL-8 promove a produção
local de aminas simpatomiméticas (p. ex. dopamina e noradrenalina).
As prostaglandinas e as aminas simpatomiméticas atuam
nos receptores dos neurônios sensitivos primários
(NSP) induzindo a sua sensibilização.
As substâncias
denominadas glicocorticóides inibem a liberação
de várias citocinas e a ativação das ciclooxigenases,
que são enzimas responsáveis pela liberação
de prostaglandinas. Portanto, os corticóides são
analgésicos por bloquearem a liberação
de várias citocinas hiperalgésicas.
A figura
acima sumariza os conceitos até agora desenvolvidos.
Na inflamação há liberação
de mediadores primários que causam sensibilização
de nociceptores ou sua ativação. Esta sensibilização
promovida pelos mediadores secundários (mecanismo metabotrópico),
ocorre pelo abaixamento do limiar de ativação
dos nociceptores e pela facilitação da condução
neuronal por tornar funcionais uma família de canais
de sódio denominadas tetrodotoxina-resistentes (TTX-r).
Estes canais parecem ser específicos dos neurônios
nociceptivos inflamatórios. Atualmente estes canais constituem
um dos alvos mais importantes para o desenvolvimento de analgésicos
(inibidores de canais de sódio TTX-r). A hipernocicepção
(hiperalgesia) é um denominador comum de todos os processos
inflamatórios.
Os analgésicos
do tipo da aspirina funcionam por inibirem a formação
de prostaglandinas. Estes analgésicos são também
chamados de drogas antiinflamatórias não-esteroidais
(AINES), os quais previnem a sensibilização dos
nociceptores. Na inflamação há duas “prostaglandinas”
sensibilizadoras principais, a PGE2 e a prostaciclina. A prostaciclina
produz uma sensibilização imediata e de curta
duração do NNIP. Ao contrário, quando a
PGE2 estiver presente na inflamação, causará
uma sensibilização demorada. Na dor de cabeça
é possível que a prostaciclina liberada pelo endotélio
seja a substância sensibilizadora. Nesta eventualidade,
o uso de uma droga do tipo da aspirina tem um efeito rápido.
Isto não ocorre em outras eventualidades. Na dismenorréia
(cólica menstrual), por exemplo, consegue-se prevenir
o desenvolvimento da dor como tratamento preventivo. Todavia,
quando ela já está estabelecida, o efeito das
drogas do tipo da aspirina não é imediato e somente
após sucessivas administrações alcança-se
um efeito analgésico. Entretanto, administrações
irregulares podem deixar de controlar a dor, pois pode ocorrer
a formação de prostaglandinas que sensibilizam
novamente os NNIP.
Há
um grupo de substâncias que em contra-posição
às drogas do tipo da aspirina são capazes de bloquearem
diretamente a sensibilização dos nociceptores.
Estas atuam por um mecanismo molecular que bloqueia a diminuição
do limiar dos nociceptores, portanto antagoniza a dor inflamatória.
Este é o grupo ao qual pertence a dipirona (Novalgina®).
Concluindo,
neste texto discutimos três mecanismos da analgesia periférica:
a) o dos corticóides, que bloqueiam a cascata de citocinas,
b) o dos inibidores da ciclooxigenase (drogas do tipo da aspirina),
que previnem a sensibilização dos nociceptores,
e, finalmente, c) drogas que inibem diretamente a sensibilização,
como a dipirona.
Talvez no
futuro possamos inventar uma terapia gênica que acabe
com os genes responsáveis pela produção
de substâncias fabricadas pelos tecidos e que são
responsáveis pela dor. O problema é que estas
substâncias são importantes em muitos processos
fisiológicos fundamentais para o nosso organismo, mas
a sorte pode estar do nosso lado em encontrarmos outras maneiras
de controlar a dor.