Quem vai
usar os serviços de qualquer médico precisa ter
alguma garantia de que ele possui um mínimo de competência.
Não há como um leigo aferir a capacidade do profissional,
por mais que se ilustre. Isso vale para médicos, advogados,
engenheiros e pessoas vinculadas a outras profissões,
nem todas de nível universitário. Citaríamos
também mecânicos de automóveis, encanadores
e eletricistas, por exemplo. Quem os consulta deve confiar neles
e nos seus sistemas de formação.
Em relação
à medicina, os métodos para diplomação
não estão apropriados, e não é de
hoje. Datando da fase ditatorial e mantendo-se depois dela,
tivemos uma festa de criação de faculdades de
medicina, aproveitando o excesso de ego e a falta de “desconfiômetro”
de vários colegas, alguns bons clínicos ou bons
cirurgiões, mas sem nenhuma vocação professoral.
Ser professor de medicina envolve diversos atributos, incluindo
a capacidade de fazer pesquisa e gerar conhecimento. Só
isso já excluiria muitos dos senhores que ostentam o
título.
Essa mesma
proliferação também se originou de empresários
da educação, que acharam um excelente nicho de
mercado, desde que não precisem investir no mais caro,
os hospitais de ensino. O que eles fizeram foi criar faculdades
cujo maior insumo é quadro-negro, giz e apagador, úteis
apenas para excepcionais didatas. Nas mais moderninhas, ocasionalmente
colocam telão, power-point e diferentes encantos.
Demanda
por médicos há – se é real ou apenas
imaginada não fica claro. Os alunos dessas coisas denominadas
faculdades de medicina não são crianças
inocentes, são adultos jovens e os mais sensatos logo
percebem que a sua escola poderá apenas lhes dar o diploma,
pois medicina mesmo eles não sabem, e vão tentar
aprender nas residências. Acontece que não as temos
para todos os formandos – atendemos no máximo 30%
– e acabamos gerando um novo fenômeno educacional:
os cursinhos para residência, outra excelente boca para
empresários do ensino.
O ensino
de medicina é difícil, se levado a sério,
e muito caro também. É perfeitamente possível
a formados em péssimas escolas, com muito esforço
e muita leitura, um aprendizado teórico adequado, ficando
complementada a parte prática na residência. É
quase impossível, no entanto, suprir as carências
de ensinamentos em área básica se o indivíduo
não estudar intensamente sozinho. Contar só com
ensinamento prático não é o suficiente,
como não adianta se apoiar apenas em teoria se não
houver prática.
Como ficamos?
Precisamos tirar o foco apenas dos recém-diplomados.
Temos muitos médicos habilitados há mais tempo,
alguns há muito tempo, inclusive em excelentes instituições,
que não estão desatualizados e que, talvez, na
época de conclusão de sua graduação
soubessem menos que alguns graduados hoje. Em medicina os conhecimentos
dobram decorridos cerca de dois anos e muito do que parece bem
estabelecido não é mais. Aliás, perguntamo-nos
que país é este, parafraseando o imortal Francelino
Pereira (será que essa criatura ainda está por
aí?), que exige muito dos médicos e não
os remunera de acordo nem favorece a educação
médica continuada, que é o único modo de
o doutor se manter em forma. Claro que numa nação
decente muitos dos maus colégios de medicina já
estariam fechados, e seus donos e professores deveriam ser processados
por estelionato pelos incautos que ingressaram neles. Contudo,
se a idéia é proteger o público, cabe,
sim, exame de competência, não restrito aos novatos.
O ideal seria que todos o fizessem e precisassem porventura
revalidá-lo a cada cinco anos, almejando-se que a prova
afira aptidão básica. Tememos que, quiçá,
muitos se surpreendam com reprovação inesperada.
Quem deverá
produzir o exame? Não sabemos exatamente. Conhecemos
com certeza quem não deve produzi-lo: ninguém
do Ministério da Saúde e ninguém do Ministério
da Educação e, de preferência, ninguém
do governo, já que a ineficiência e a displicência
desses senhores geraram a situação atual. O ideal
seria copiar o modelo da Fundação Universitária
para o Vestibular (Fuvest) e contar com um grupo de professores
de medicina (verdadeiros professores) de alto gabarito e bom
senso. O órgão federal que poderia sediar o exame
(não fazê-lo) seria o Conselho Federal de Medicina,
eleito por seus pares, e com o apoio dos Conselhos Regionais.
Copiando de novo o modelo da Fuvest, as condições
de segurança do exame teriam que ser pelo menos as mesmas,
garantindo a validade.
Algum rábula
vai dizer que a proposta interfere na sagrada liberdade de exercer
a profissão no sentido do que o diploma concede. E de
fato dá uma liberdade absoluta: se os que subscrevem
este texto quiserem sair por aí fazendo neurocirurgia
ou cirurgia têm autorização para tanto –
a única coisa que separa a população dessa
tragédia é a consciência de ambos. Isso
requer alteração na Constituição
ou, com muito maior simplicidade, em normas que, estas sim,
precisam ser exaradas pelo governo federal, definindo que só
pode desempenhar as funções inerentes à
medicina quem passar nas avaliações iniciais e
nas seguintes, além de também restringir, por
exemplo, execução de cirurgia cardíaca
ou neurocirurgia apenas a quem possuir preparo adequado. Um
dos índices é baseado em títulos de especialista,
atribuídos pelas sociedades pertinentes, que já
envolvem validação periódica. Convém,
a propósito, frisar que tal credencial nunca dependerá
de influências condenáveis, às vezes presentemente
percebidas.
Ao Conselho
Federal de Medicina, aos Conselhos Regionais de Medicina e às
progressistas associações de médicos cabe
mudar, logo, de compostura. Basta de resmungar, sugerir, argumentar
e implorar. O momento pede medida firme e construtiva, para
encerrar a perigosa vigência de condição
que macula a saúde pública.
Não
cremos que estejamos propondo algo utópico nem impossível
de implantar. Como sempre diz um nosso líder político,
é só ter vontade política com enfrentamento
a todos os lobbies, muitos deles contra a simplicidade e a sensatez.
Somos péssimos como previsores do futuro. Todavia, somos
capazes de apostar alguns minguados reais em que algo do gênero
vai acontecer mais cedo ou mais tarde, por imposição
da população que hoje está se sentindo,
com razão, desprotegida.