Nenhuma
outra experiência está tão embutida de significados
quanto a dor. A idéia de que dor é simplesmente
o resultado de uma condição física interna
é relativamente recente. Para muitos filósofos
e culturas, a dor teria origem externa tal como "a vontade
de Deus". Esta concepção de origem externa
da dor, possibilitou que ela viesse cheia de significados dos
contextos social e moral da época. A história
bíblica do Gênesis descreve a introdução
da dor e sofrimento na experiência humana como punição
divina para a transgressão e sua ascendência Judaica-Cristã
tem permitido a compreensão da dor pelo ocidente.
Por toda
a história literária, as representações
da dor foram baseadas em doutrinas de punição.
No centro do Inferno de Dante, a monstruosa figura de Lúcifer
atormenta três homens que traíram seus senhores:
Cassius, Brutus e Judas Iscariot.
No Paraíso
Perdido, Milton descreve a "lastimosa sombra" do inferno,
saboreando a agonia dos anjos caídos depois de sua violenta
subordinação. Em sinistros detalhes, ele descreve
suas "torturas sem fim". Dante e Milton cuidadosamente
enfatizam que a dor é permanente, porque é necessário
diferenciar a dor punitiva da purificação moral
que está associada à dor transitória. O
sacrifício de Jesus no calvário, a fome ascética
de Siddhartha e as seitas religiosas que pregam o auto-flagelo
nos dias santos manifestam o uso da dor para purificação,
perdoando a transgressão através de ablações
dolorosas temporárias. E assim, o esforço para
construir qualquer paralelo consistente entre moralidade e dor
deve ser respondida com a dura questão de Hamlet, "Use
cada homem depois de seu deserto, e quem deverá escapar
a punição?" . Apesar da antiga associação
entre dor, o caracter moral e comportamento social das pessoas,
é somente nos textos literários e teológicos
que tal associação é precisa.
A noção
de que dor resulta da transgressão a alguma regra não
está somente contida na imaginação dos
escritores. Uma olhada mais além mostrará recentes
afirmações de que a AIDS é um meio de punição
divina aos homossexuais, assim ainda hoje, o sofrimento físico
não está separado da saúde espiritual.
As conseqüências de tais afirmações
para aqueles que sofrem são significativas tanto na luta
solitária dos indivíduos para terminar com o seu
sofrimento quanto para aqueles que fazem política de
saúde.
Devido as
diferenças morais e tradições narrativas,
as culturas atribuem significado a dor em diferentes caminhos.
Há numerosas tentativas para identificar a extensão
na qual a experiência de dor difere entre os grupos étnicos
e nacionais. Embora alguns pesquisadores tentem obter dados
significativos que sugiram influências culturais na percepção
da dor experimental aguda ou crônica, há fatores
frustrantes, muitas vezes baseados na expressão da dor,
o que tornam qualquer distinção insustentável.
Assim como a relação entre moralidade e dor não
pode ser claramente identificada, a correlação
entre fisiologia e experiência de dor permanece imprecisa.
Mais pertinente
a ponderações imediatas é o caminho pelo
qual os médicos respondem sobre dor baseando em diferenças
étnicas. Em um estudo israelita, médicos judeus
e parteiras avaliaram a dor em 225 parturientes judias e 192
beduínas, que também relataram sua própria
dor (auto-avaliação) durante o parto. As mulheres
judias e beduínas avaliaram-se de modo equivalente, mas
os médicos e parteiras registraram menos dor nas mulheres
beduínas. Nós não podemos explicar diferenças
culturais na expressão da dor, mas ainda assim, tais
diferenças são percebidas.
Pesquisas
médicas tem nos proporcionado rica compreensão
nos mecanismos da dor, mas a fisiologia dos nervos e anatomia
dos dermátomos não conseguem explicar a experiência
da dor. Dor é uma das poucas experiências que cada
pessoa terá, e é intensamente particular. Quando
Virginia Woolf escreve "a mais pura das meninas quando
ama tem Shakespeare ou Keats falando em sua mente, mas um sofredor
ao descrever sua dor a um médico usa a linguagem seca",
ela está denominando a dificuldade intrínseca
de transmitir a dor a outra pessoa como experiência pessoal
de dor.
Na pergunta
sobre a dor, o médico tenta interpretar a mensagem para
codificar um processo patológico, verificando a dor e
sua relação com o problema que está sendo
avaliado. Não somente esta prática está
limitada pela existência de processos patológicos
não dolorosos, mas também porque o médico
nunca será capaz de sintonizar com seu paciente sem tentar
compreender como a pessoa está sentindo a dor.
Enquanto
a investigação da dor como um fenômeno fisiológico
é importante, dor não pode mais ser reduzida a
fisiologia desde que ela pode ser elegantemente explicada por
paradigmas social e moral. A dificuldade de falar sobre dor
e compreender a dor de outra pessoa resulta de sua complicada
origem como função de nosso corpo e de nossa identidade.