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A execução
da nucleoplastia ou ablação do núcleo pulposo
do disco intervertebral por meio de agulha com ponta emissora
de radiofreqüência tem nos proporcionado grande facilidade
para tratar das dores, hoje muito comuns, irradiadas da coluna
vertebral, notadamente nos segmentos proximal (cervical) e distal
(lombo-sacral). A resposta ao procedimento tem sido bastante
satisfatória, aliada ao fato de que os pacientes retornam
rapidamente às suas atividades normais.
Cada vez mais temos encontrado, na nucleoplastia, a resposta
terapêutica para patologias da coluna, além da
tradicional herniação discal. No presente texto
apresentamos algumas indicações para esta técnica,
seus prós e contras, suas contra-indicações
formais, além de um protocolo de pré e pós-operatório
utilizado em nosso serviço.
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Diagnóstico
O diagnóstico de patologias da coluna vertebral passíveis
de tratamento pela nucleoplastia percutânea é fundamental
para o sucesso da técnica. Entretanto, sua indicação
indiscriminada pode vir a desacreditá- la, o que torna
relevante o cuidado de não a usarmos como panacéia.
Os critérios devem ser universalizados, embora, aqui, não
haja uma tentativa de interferirmos no, soberano, critério
de conduta adotado pelos colegas. O conhecimento da anatomia da
coluna vertebral é vital, mas tão importante quanto
é o conhecimento da fisiologia e do comportamento dinâmico
da estrutura vertebral e suas relações com a musculatura
paravertebral e ossos contíguos.
O funcionamento estrutural da coluna está diretamente ligado
à atitude do indivíduo e seu modo de se comportar
e agir no quotidiano: seu jeito de pisar, sua maneira de estar
de pé, sua atitude aos esforços, sua posição
ao sentar, dormir e sua capacidade de interagir com as vicissitudes
de sua sociedade.
As grandes cidades e algumas das novas atividades têm grande
importância no desempenho corporal das pessoas. É
amplamente sabido que algumas doenças são muito
freqüentes nas grandes metrópoles e quase ausentes
no campo. Como veremos, determinadas patologias da coluna vertebral
não fogem a essa regra, estando diretamente associadas
ao ambiente laborativo do indivíduo. Há, no entanto,
uma natural reticência minha em classificá-las como
doenças profissionais, porquanto poderiam, em grande parte,
ser evitadas ou minimizadas e postergadas se houvesse, como reitero
mais adiante, uma vontade política de fazê-lo.
Diuturnamente, em nossa clínica, nos deparamos com patologias
da coluna vertebral que poderiam ter sido evitadas se fossem observadas
pequenas regras para o ambiente de trabalho. Ao nos depararmos
com queixas freqüentes de lombalgia, lombociatalgia, cervicalgia,
cervicobraquialgia, nucalgia, entre outras afecções,
devemos sempre ter em mente condutas diagnósticas que nos
levem, rapidamente, a estabelecer um diagnóstico de certeza
da etiopatogenia da queixa, iniciando, assim, o tratamento pertinente.
O alívio imediato das dores do paciente é imperativo,
porém não menos importante é o estabelecimento
de uma boa cumplicidade com o mesmo, principalmente no cuidado
ao dizer-lhe que o seu tratamento é cirúrgico –
o que, às vezes, pode assustá- lo e levá-lo
a postergar um tratamento de simples execução como
a nucleoplastia, bem menos onerosa e penosa que a cirurgia tradicional.
Uma boa história e anamnese são imperativas e a
conduta deve, se possível, ser sempre a mesma, para que
não haja descontinuidade nos procedimentos, o que, facilmente,
pode nos induzir a falhas tais como esquecermos de solicitar algum
exame ou deixarmos de aconselhar determinados padrões como,
por exemplo, dietas, suspensão de algumas atividades e
o estabelecimento de regras bem definidas de comportamento, até
o diagnóstico definitivo e a proposta de tratamento. Considerando-se
que este é um novo procedimento, desconhecido até
para colegas, tanto neurocirurgiões quanto ortopedistas,
em nosso serviço adotamos a seguinte dinâmica: solicitamos
aos pacientes operados a autorização para repassarmos
seu telefone a outros aos quais a técnica foi proposta,
para que estes se informem por quem já passou pelo processo,
e não pela equipe médica. Ressalte-se que tal método
melhorou muito a aceitação da nucleoplastia.
Exames
Os exames que nos dão a certeza diagnóstica são
o raios X dinâmico, a eletroneuromiografia e a ressonância
magnética, cada um, per se, a seguir explicitado:
• raios X dinâmico – utilizado para tentarmos
estabelecer se há listese vertebral e o seu grau, mostrando-
nos o nível de comprometimento do espaço, corroborando
a queixa de dor apresentada pelo doente;
• eletroneuromiografia – revela a exata dimensão
do grau de comprometimento da raiz pesquisada, indicando, eventualmente,
a presteza com a qual o procedimento deve ser realizado;
• ressonância magnética – fornece a imagem
da lesão, indicando, assim, o tipo de procedimento a ser
realizado.
Destaque-se que outros exames podem se fazer necessários,
dependendo de patologias próprias de cada indivíduo,
a fim de estabelecermos o diagnóstico diferencial e/ou
graus de correspondência entre patologias concomitantes,
como, por exemplo, paciente que apresente, além de uma
ciatalgia, dor no nível do quadril (o que é bem
freqüente). Nestes casos, o estabelecimento de patologias
articulares ao nível do quadril, tais como a artrose, nos
guiarão por uma estrada, mas se não for essa circunstância
e a articulação estiver íntegra isto pode
nos mostrar que a patologia é mais antiga do que nos conta
a história do paciente, por ter provocado dor articular
devido a um caminhar antálgico crônico.
Pacientes portadores de infecções crônicas
podem padecer de polimialgia, bem como de neurites de repetição,
o que nos pode levar a um diagnóstico errôneo, associando
uma protusão discal a uma ciatalgia que se manifesta por
inflamação da raiz, sem compressão da mesma.
Algumas outras patologias, potencialmente causadoras de neurites
e/ou miosites, podem nos conduzir a erro diagnóstico. Por
isso, uma história bem colhida e uma anamnese bem feita
são elementos fundamentais para um diagnóstico de
certeza.
Indicações
A primeira e mais evidente é a hérnia discal, porém
o procedimento não é uma panacéia e as limitações
da técnica devem ser levadas em consideração,
ou podemos desacreditá-la rapidamente.
Nossas indicações são as seguintes:
1- Hérnias contidas – são as hérnias
não-extrusas, aquelas que ainda não extravasaram
para dentro do canal vertebral. Nota-se, apesar da compressão
radicular, os limites da protusão, sem grande quantidade
de tecido fibroso (inflamatório) ao redor de sua extrusão.
Não há sinais de cintamento do canal abaixo do seu
ponto de protusão. Portanto, o tecido projetado encontra-se
em condições de retornar para o seu sítio
de origem, na direta proporção da diminuição
do volume intradiscal (discectomia) que, em média, é
de 5ml.
2- Múltiplas protusões – é
cada vez mais comum, com a certeza de origem profissional, a ocorrência
de duas ou mais protusões discais, principalmente em nível
cervical, em vista da exigência cada vez mais freqüente
do uso de computadores nos mais diversos campos de atividades
laborativas. O paciente apresenta nucalgia crônica, desconforto
diário e não tem como melhorar, pois mesmo quando
se encontra em seu lar comumente utiliza seu computador pessoal.
Há falta de informação e de políticas
que introduzam a ergonomia como matéria de consumo quotidiano,
levada a sério, a fim de prevenirmos esta patologia. A
fisiopatologia do quadro é simples, pois o seu fator predisponente
é a pressão crônica do peso da cabeça
sobre as estruturas cervicais, deslocando o centro de gravidade
da cabeça e, conseqüentemente, desgastando as articulações
das vértebras cervicais, produzindo desgaste das superfícies
articulares e penalizando o ligamento posterior, o que leva a
uma contração anormal da musculatura cervical posterior,
não preparada para tal esforço. A conseqüente
instabilidade vertebral a este nível provoca microlisteses
das vértebras, penalizando, ainda mais, o ligamento posterior,
que naturalmente acaba sucumbindo ao esforço, produzindo
protusões discais, principalmente entre os níveis
C3 a C7. Outra queixa comum, em ambulatórios de neurologia,
é a dor temporal ou o “desconforto” temporal,
com irradiação para a região retroauricular,
que piora durante o dia e, eventualmente, acorda o paciente, que
muitas vezes é estressado e trabalha em excesso (mulheres
com dupla jornada: casa/emprego). Nesses casos, é comum
o neurologista pesquisar várias origens para a queixa e
chegar ao diagnóstico de “estresse”, entrando
com uma medicação ansiolítica ou antidepressiva,
sem uma redução drástica do padrão
álgico (às vezes, o uso da amitriptilina, como antidepressivo,
mascara, durante algum tempo, o quadro álgico, pois tem
ação antineurítica, eventualmente). Para
tal circunstância indica- se a ressonância magnética
cervical, o que nos leva, comumente, a encontrar protusões
discais nos níveis C4/C5, principalmente. Sabemos que,
anatomicamente, alguns têm o “Y” invertido da
emergência radicular mais fechado e, como conseqüência,
uma maior proximidade ao centro do disco, fazendo com que suas
mudanças anatômicas possam, rapidamente, vir a tocar
a raiz correspondente, produzindo dor. Esse mecanismo é,
algumas vezes, encontrado nos níveis lombares, principalmente
no L4 a S1, porém em menor incidência.
3- Degeneração discal – é
comum nos deparamos com essa sintomatologia, sem a presença
da, clássica, compressão radicular direta através
da herniação do disco correspondente. Nessa circunstância,
costumamos ver uma desidratação do núcleo
pulposo, sem protusão, mas com presença de material
inflamatório no espaço adjacente, por conta de uma
hipertrofia do ligamento amarelo, naturalmente formado por microtraumas
secundários à instabilidade local. Esses são
os casos com os quais lidamos no nosso quotidiano e que nos levam
a indicar a técnica. A nucleoplastia torna-se inócua
nos casos de extrusão do disco, pois como já não
há limites anatômicos claros e em vista do espalhamento
do material do núcleo no interior do canal vertebral é
virtualmente impossível o retorno do disco e de suas estruturas
para o seu locus anatômico. As estatísticas mais
recentes nos mostram que 85% das hérnias discais podem
ser tratadas, eficazmente, com a nucleoplastia percutânea.
O pré-operatório
Essa fase é bem facilitada pela baixíssima incidência
de complicações no uso da técnica, que pode
ser realizada quase que na maioria absoluta dos pacientes, independente
de apresentarem as mais diversas patologias clínicas, concomitantes,
posto que os danos anatômicos são mínimos
e a ausência de sangramento é fator importante, tornando-a
praticamente sem contra-indicações. Mas a solicitação
de exames básicos se faz imperativa, tais como hemograma
completo, coagulograma, glicemia em jejum e creatinemia, além
de eletrocardiograma e raios X de tórax, como complementação.
Anestesia – a nucleoplastia facilita muito a vida do anestesista,
tornando o pré e o pós-operatórios bastante
rápidos e com o mínimo de complicações.
Pelo fato de a anestesia geral não ser utilizada, vários
riscos podem ser afastados. A anestesia local, associada a uma
discreta sedação, nos casos de nucleoplastia cervical,
e a peridural, com sedação, nos demais casos, melhoram
o padrão de recuperação do paciente, tornando-o
apto à alta em algumas horas – aproximadamente, 6
horas, no caso da cervical, e de 8 a 12, nas lombares e dorsais.
Nucleoplastia – para a nucleoplastia cervical utilizamos
uma agulha-guia, colocada no corpo de uma vértebra cervical,
mais comumente a C4, pela facilidade maior de acesso. A partir
daí, alcançamos os níveis propostos, sempre
com controle radiológico. Em vista do cuidado com as lesões
da artéria vertebral, seguimos o caminho mais medial possível.
A carótida externa, eventualmente, é transfixada
e devemos observar se há formação de hematoma
cervical logo após a retirada da agulha. Se houver perfuração
da carótida, a compressão simples por 5 minutos
evita maiores transtornos. A nucleoplastia lombar e/ou torácica
é iniciada com a marcação da lâmina
da vértebra superior do espaço a ser operado (exemplo:
discectomia L4/L5, marcase a lâmina de L4, o que nos dará
o primeiro ponto do triângulo). O procedimento é
iniciado a seguir, usando-se o ponto de referência. Embora
sejam raros os acidentes na nucleoplastia, a atenção
aos acidentes anatômicos que podem ser encontrados no caminho
da agulha-guia não devem ser negligenciados.
Pós-operatório
No pós-operatório imediato não encontramos
grandes contratempos, a não ser algumas queixas de dor
e desconforto nas primeiras horas. No mediato, já em casa,
alguns dos primeiros pacientes relataram dores em outras localizações,
que não as da causa da cirurgia. Ao analisarmos as queixas,
sanadas, deparamo- nos com as seguintes conclusões:
1- Ciatalgia contralateral – no 2º dia pós-operatório,
o paciente queixou-se de que, ao dormir, teve este sintoma. Imaginamos
uma listese provocada pelo relaxamento natural e a anulação
da musculatura paravertebral. Preconizamos o uso de um colete
de barbatanas para estas ocasiões, o que deu excelente
resultado;
2- Cervicobraquialgia bilateral – o mecanismo de produção
da dor foi o mesmo anterior. Igualmente, passamos a preconizar
o uso de colar cervical nessas ocasiões. O tempo de utilização
do colar varia de paciente para paciente, mas, em média,
com 30 dias de utilização regular os sintomas desaparecem;
3- Artralgia do joelho – por terem adotado uma posição
antálgica durante muito tempo, os pacientes examinados
nos evidenciaram um desarranjo articular temporário, o
que foi sanado com tratamento ortopédico e fisioterápico.
Follow-up
Os nossos pacientes – desde o primeiro, há um ano
– têm tido excelente recuperação, retornando
às suas atividades normais em pouco tempo, resguardando-
se, naturalmente, as profissões de cada um. Nos pacientes
acompanhados, a fisioterapia, notadamente a reeducação
postural global (RPG), a natação e o reforço
da musculatura paravertebral estão preconizados não
só pela recuperação do nível atingido
mas pela prevenção de novas patologias vertebrais.
Os exercícios com gravidade zero, tais como a natação,
são excelentes para a recuperação e, mesmo,
para a prevenção dessas patologias. Cuidados ergonômicos
nas tarefas diárias, tanto domésticas quanto profissionais,
são imperativos.
Conclusão
A nucleoplastia por radiofreqüência é um procedimento
seguro e resolve aproximadamente 85% dos casos de hérnias
discais e outras afecções afins, devendo, portanto,
integrar nossa clínica diária. Seu nível
de aceitação é cada dia maior e, com certeza,
em pouco tempo não será desconhecida para a maioria
da população, como hoje o é. Os cuidados
em sua indicação são fundamentais para não
desacreditar a técnica. Seu baixo custo, comparado à
cirurgia tradicional, aliado ao baixíssimo nível
de complicações, fará, em breve, com que
as seguradoras o liberem com menos burocracia, encurtando bastante
o intervalo entre o diagnóstico e o procedimento, que ainda
pode ser considerado longo.
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Autor:
Roberto Salles de Queiroz Muniz - Neurocirurgião
Jornal do Conselho Federal de Medicina – CFM
Ano XX nº 154 – março/abril 2005 |
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