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O PAPEL DA RIZOTOMIA DE FACETAS NO TRATAMENTO DAS LOMBALGIAS CRÔNICAS:
PROTOCOLO PARA AVALIAÇÃO PROSPECTIVA E REVISÃO
DA LITERATURA BASEADA EM EVIDÊNCIA |
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As lombalgias crônicas consistem um grupo heterogêneo
de doenças com diversas etiologias e aspectos fisiopatológicos
diferentes. Segundo Kelsey & White (1980), essas doenças
representam um significativo problema de saúde nas sociedades
industriais modernas e seus dados apontam que 75% da população
terão, ainda que temporariamente, lombalgia e/ou ciática.
Já Nagi et al (1973), referem que a prevalência desse
grupo de doenças é em torno de 20%. Nos E.U.A.,
dados nacionais de saúde (Sypert et al., 1996), mostram
que lombalgia aparece como a mais comum queixa específica
nas consultas médicas primárias e a sexta colocada
em termos de dias de internação hospitalar por ano.
Além disso, é afecção com gastos elevados
para seu tratamento.
Apesar da magnitude socioeconômica das lombalgias crônicas,
a avaliação clínica e por exames complementares,
bem como o tratamento das mesmas continuam sendo um desafio. A
dificuldade já se mostra na identificação
da origem da dor, pois, embora seja comum imputar a origem da
dor às lesões degenerativas da coluna lombar como
hérnia discal, protusões discais, estenose de canal
raquiano, osteoartrite facetaria, em um grande número de
casos de lombalgia não se consegue identificar adequadamente
a origem da dor (Jensen et al., 1994). Boden et al. (1990) e Wiesel
et al. (1984) demonstraram que todas essas alterações
podem acometer, em grande porcentagem dos casos, indivíduos
que nunca tiveram ou que nunca terão lombalgia. Ou seja,
a presença dessas alterações degenerativas
não necessariamente causa dor.
Anamnese e exame físico detalhados, bem como propedêutica
armada, seqüencial e racionalizada, permitem identificar
grupos de doenças relacionadas freqüentemente à
lombalgia, como é o caso do câncer em coluna vertebral,
osteomielite vertebral, fraturas, espondilite anquilosante, hérnia
discal lombar e estenose de canal lombar (Bigos et al., 1994).
Desse modo, é possível correlacionar a dor com sua
etiologia e programar o tratamento conforme a causa da lombalgia.
Esse autor, entretanto, refere que na grande maioria dos casos
(cerca de 85%) nenhum diagnóstico específico pode
ser feito.
Dado a presença dessa dificuldade para o diagnóstico
específico, tem-se procurado identificar lesões
estruturais que possam estar relacionadas à lombalgia.
Atualmente, a literatura tem apontado duas lesões que poderiam
estar relacionadas a lombalgia: osteoartrite facetaria e rompimento
discal interno. Ambas as lesões são de origem degenerativa,
e tem sido usados dois métodos para avaliá-las que
são respectivamente o bloqueio facetário com anestésicos
e a discografia com provocação de dor. Apesar de
amplamente divulgados na literatura internacional, tanto essas
etiologias, como esses métodos diagnósticos permanecem
controversos.
Segundo Berven et al. (2002), as articulações facetárias
são elementos importantes na estabilidade da coluna lombar,
e sua degeneração (osteoartrite) poderia estar relacionada
à instabilidade e dor. Também Schwarzer et al. (1995),
estudando a participação das facetas articulares
na origem das lombalgias, referem que a contribuição
delas não é rara, e estaria em torno de 10%. Entretanto,
Manchikanti et al. (1999), referem que a participação
das facetas na origem da dor seria de 15% a 40%. Boden et al.
(1999) e Fujiwara et al. (2001) mostraram que a orientação
sagital das facetas está mais relacionada a osteoartrite,
espondilolistese e conseqüentemente a instabilidade e dor.
Já Beaman et al. (1993) demonstraram a presença
de substância P nas terminações nervosas das
articulações facetárias degeneradas (osteoartrite)
sugerindo que essas lesões estariam mesmo relacionadas
à dor.
Schwarzer et al. (1994) referem que não existe um quadro
clínico específico que indique, com segurança,
que certa lombalgia é ou não de origem facetária
e por isso diz não existir “síndrome facetaria”.
Além disso, o mesmo autor, afirma que o bloqueio facetário
com anestésicos tem um papel limitado e é inseguro
para o diagnóstico de dor facetaria. A grande crítica
a esse método diagnóstico seria que o anestésico
usado para o bloqueio facetário se difundiria pela região
bloqueando outras estruturas, o que mascararia a origem da dor.
A participação do disco intervertebral na gênese
de alguns tipos de lombalgias tem sido amplamente divulgada na
literatura internacional e em maior proporção que
as lesões facetarias. Ito et al. (1998), estudando ressonância
nuclear magnética de doentes com lombalgias, afirmam que
a lesão discal que está relacionada à dor
é o rompimento discal interno, e esta apareceria na ressonância
magnética como uma zona de hipersinal em T2. A lesão
discal interna foi definida pela International Association for
the Study of Pain Taxonomy assim: 01. dor reproduzida (igual ou
semelhante) pela provocação da discografia; 02.
a tomodiscografia revela ruptura discal interna; 03. e desde de
que, como controle, pelo menos um disco falhe em reproduzir a
dor. Segundo Schwarzer et al. (1995), em seu estudo, esses diagnósticos
foram preenchidos em 39% dos casos, comumente em L4/L5 e L5/S1.
Afirmam, ainda, que nenhum quadro específico pode diferenciar
pacientes com dor discogênica de outras condições.
Já Caragee et al. (2000), estudando discografias de doentes
sem lombalgia crônica, constatou falso positivo em 10% no
grupo sem lombalgia crônica, 40% no grupo com dor crônica
e 83% no grupo com doenças psiquiátricas (somatizadores).
Portanto, excetuando os doentes com dor crônica e com distúrbios
psiquiátricos, as discografias têm uma taxa de falso
positivo baixa. Os mesmos autores, em outro trabalho (1999), já
haviam encontrado alta taxa de falso positivo em doentes com dor
crônica e sem lombalgia.
Com relação ao tratamento das lombalgias crônicas
sem causa aparente, os resultados da cirurgia de fusão
vertebral são freqüentemente desapontadores. Além
disso, Smith et al. (1995), estudando a história natural
das lombalgias discogênicas, referem que a evolução
natural da doença é comparável ou melhor
do que os resultados do tratamento cirúrgico (fusão
vertebral). Por outro lado, a lesão neural facetaria por
radiofreqüência é, segundo Manchikanti et al.
(1999), comprovadamente válido somente para dor facetaria
cervical e seu uso nas dores facetarias lombar e torácica
carece de comprovação.
Assim, vemos na literatura internacional uma crença de
que alterações patológicas nos discos e nas
facetas podem ser mesmo fontes de lombalgia. Entretanto, os métodos
usados tanto para avaliação diagnóstica como
os usados para tratamento, ainda não são os ideais.
É na carência de maior diagnósticos e terapêuticos
e nas evidências do envolvimento discal e facetário
nas lombalgias, é que nos baseamos para realizar nosso
trabalho.
II – MATERIAL E MÉTODO
O
projeto de pesquisa será realizado no Ambulatório
de Coluna do Serviço de Neurocirurgia do Hospital Heliópolis
- SUS de São Paulo sendo inicialmente avaliados clinicamente
através de anamnese, exame físico e exames complementares
conforme cada caso. A dor será, antes de iniciar o tratamento,
mensurada através de escala visual analógica numérica
e escala de descritores verbais07,15,17,24.
Os pacientes serão obrigatoriamente submetidos aos seguintes
exames complementares: 01. radiografia simples de coluna lombar
e torácica; 02. estudo radiográfico dinâmico
das colunas torácica e lombar; 03. ressonância da
coluna lombar; 04. radiografia sacroilíaco e coxofemoral;
05. provas de atividade inflamatória; 06. hemograma e bioquímica
sanguínea.
Serão excluídos do estudo os doentes que tiverem:
01. dor crônica que não lombalgia; 02. Diabetes mellitus;
03. doenças reumatológicas; 4. distúrbios
metabólicos; 5. distúrbios psiquiátricos;
06. clara evidência de instabilidade da coluna lombar; 07.
hérnia discal e estenose de coluna com quadro clínico
compatível com exame de imagem; 08. litígio a resolver.
Os doentes serão então, submetidos a tratamento
fisiátrico e uso de antiinflamatório não
hormonal, relaxante muscular e antidepressivo tricíclico
por pelo menos 03 meses. As dores dos doentes serão novamente
mensuradas através da escala visual analógica numérica
e de descritores verbais, e classificadas conforme o que se segue17:
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GRUPOS |
DESCRITORES |
NOTAS
ASSOCIADAS |
01 |
Minúscula,
suave, discreta, pequena, leve, fraca, branda e amena. |
00,
01 e 02 |
02 |
Tolerável,
suportável, regular, moderada e média. |
04
e 05 |
03 |
Grande,
acentuada, muito forte, enorme, intensa, excessiva. |
06,
07, 08 e 09 |
04 |
Excruciante,
intolerável, insuportável. |
10 |
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Os pacientes serão submetidos a rizotomia
de facetas lombares por radiofreqüencia, se :
01.
Ao final do tratamento (de pelo menos 03 meses) estiverem, em
relação à intensidade da dor, nos grupos
02, 03 ou 04;
02. Dor com mais de 06 meses de duração.
03. Apresentarem como característica da dor: intermitente,
com piora: pela manhã, ao movimento, ao permanecer de pé
por período prolongado, aos movimentos extremos e súbitos,
na hiperextensão e rotação
A
avaliação dos resultados será realizada no
período de três meses, seis meses e um ano do procedimento
mensurada na escala visual analógica numérica.
III - OBJETIVOS
01. Avaliar a eficácia terapêutica da rizotomia de
facetas por radiofreqüência.
02. Comparar o método com outras terapias;
03. Avaliar a morbidade da terapêutica.
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01.
Beaman DN, Graziano GP, Glover RA, Wojtys EM, Chang V: Substância
P innervation of lumbar facet joints, Spine 18(8): 1044-9, 1993.
02.
Berven S, Tay BB, Colman W, Hu SS: The lumbar zygapophyseal joints:
a role in the pathogensis of spinal pain syndromes and degenerative
spondylolisthesis, Semin Neurol 22(2): 44-50, 2002.
03.
Bigos S, Bowyer O, Braen G, et al.: Acute Low Back Problems in
Adultsl. Clinical Pratice Guideline Nº 14. AHCPR Publication
Nº 95-0642. Agency for Health Care Policy and Research, Public
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Departament of health and human services: Rockville, MD, 1994.
04.
Boden SD, Davis DO, Dina TS, et al.: abnormal magnetic ressonance
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05.
Carragee EJ: Is lumbar discography a determinate of discogenic
low back pain: provocative discography reconsidered, Curr Rev
Pain 04(4): 301-8, 2000.
06.
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07.
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08.
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facet joint osteoarthritis, and stability of the degenerative
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09.
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10.
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11.
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12.
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14.
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its management. Curr Rev Pain 03(5): 348-358, 1999.
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16.
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17.
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18.
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19.
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Clinical features of patients with pain stemming from the lumbar
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20.
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value of the provocation response in lumbar zygapophyseal joint
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21.
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22.
Smith SE, Darden BV, Rhyne AL, Wood KE. Outcome of unoperated
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23.
Sypert GW, Arpin-Sypert EJ: Evoluation and management of the failed
back syndrome. In Youmans: neurolocal surgery, volume 03, fourth
edition, W. B. Saunders Company.
24.
Turk DC, Melzack R, The measurement of pain and the assesment
of people experiecing pain. In Turk DC, Melzack R, ed. Handbook
of pain assesment. New York, Guilford Press, 1992. p 03-12.
25.
Wiesel SW, Tsourmas N, Feffer HL, et al.: A study of computer-assisted
tomography. The incidence of Positive CAT Scans in as asymptomatic
group of patients, J Neurosurg 28: 204-6, 1984.
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V- RESUMO
DE TRABALHOS DE REVISÃO DA LITERATURA
1.
O método proposto utiliza a tecnologia de radiofreqüência,
com uso de cânulas especiais, descartáveis, recobertas
com Teflon, nas quais será introduzido um eletrodo para
a passagem de energia de radiofreqüência através
do eletrodo e conseqüente coagulação do alvo
pretendido (no caso da paciente o ramo medial de ramos radiculares
lombares). Esta tecnologia foi desenvolvida e apresentada pela
primeira vez na década de 60 do século passado (White,
JC, Sweet, WH., paginas 193 a 197, no livro Pain and the Neurosurgeon.
Springfield: CC Thomas – 1969)
2.
O uso de radiofreqüência na coluna vertebral se desenvolveu
principalmente com os trabalhos pioneiros de Shealy no inicio
dos anos 70 do século passado (Shealy, CN: Facets in back
and sciatic pain. Minn. Med 57: 199-203 - 1974).
3.
A técnica de Shealy (1974) foi aprimorada no inicio deste
século com o trabalho de Dreyfuss et al., que foi publicado
na Spine comprovando a eficácia do método em casos
específicos (Dreyfuss, P et al: Efficacy and validity of
radiofrequency neurotomy for chronic lumbar zygapophysial joint
pain. Spine 25: 1270-1277 (2000)).
4.
Diversos trabalhos demonstram a eficácia do método.
Conforme determina Sociedade Internacional de Intervenção
na Coluna (Practice Guidelines – Spinal Diagnostic &
Treatment Procedures, editado por Nikolai Bogduk, publicado no
ano de 2004).
5.
As evidências científicas para o método da
radiofreqüência no caso especifico da paciente se situam
em nível I e II (ou A e B). O que demonstra que o método
apresenta resultado e eficácia superior nos casos específicos.
O trabalho de van Kleef demonstra que o método se apresenta
com grande eficácia (van Kleef, M et al.: Randomized trial
of radiofrequency lumbar facet denervation for chronic low back
pain. Spine 24: 1937-1942 (1999))
6. Estudo comparativo recente demonstra que o método se
enquadra em um dos melhores tratamentos de dor na coluna vertebral.
O trabalho de Dreyfuss publicado na revista Spine no ano de 2000.
Os pacientes foram acompanhados por 12 meses e cerca de 60% dos
pacientes apresentaram melhora mantida de suas dores iniciais
(Dreyfuss, P et al: Efficacy and validity of radiofrequency neurotomy
for chronic lumbar zygapophysial joint pain. Spine 25: 1270-1277
(2000)).
7.
Os estudos demonstram inclusive que o método da radiofreqüência
apresenta excelentes resultados quando comparado com tratamento
conservador. Estudos randomizados, duplos-cegos, com controle
de placebo foram relatados a partir do ano de 1996 (um dos estudos
publicado no New England Journal of Medicine no ano de 1996 foi
o de Lord, SM et al.: Percutaneous radiofrequency neurotomy for
chronic cervical zygapophyseal joint pain. N. Eng J Med 335: 1721-1726
(1996)). Estudos com período de acompanhamento longo também
demonstram a eficácia do método (em especial Lord,
SM et al.: Percutaneous radiofrequency neurotomy of the cervical
medial branches: a validated treatment for cervical zygapophyseal
joint pain. Neurosurgery Quaterly 8: 288-308 – 1998 e o
trabalho de McDonnald, GJ et al: Long term follow-up of patients
treated with cervical radiofrequency neurotomy for chronic neck
pain. Neurosurgery 45: 61-68 – 1999).
8.
Estudos recentes inclusive demonstram que o método pode
ser uma alternativa de tratamento, mesmo em pacientes que se encontram
afastados e se mostram querelantes com os serviços de perícia
medica (Sapir, DA, Gorup, JM: Radiofrequency medial branch neurotomy
in litigant and nonlitigant patients with cervical whiplash. Spine
26: E268-E-273 – 2001).
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Dr.
Marcelo Ferraz de Campos
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