A primeira
vez que se empregou uma técnica cirúrgica para
o tratamento de doenças psíquicas (psicocirurgia),
foi em 1935 com as leucotomias (lobotomias) frontais realizadas
por dois cirurgiões portugueses: Egas Munis e Almeida
Lima, os quais receberam o Prêmio Nobel, em 1949. O trabalho
foi baseado em experiências com chimpanzés observando
que, após a ablação da área pré-frontal
dos animais operados, eles não manifestavam mais as características
reações de descontentamento quando frustrados.
A operação consistia em uma secção
bilateral da parte anterior dos lobos frontais, passando adiante
dos cornos anteriores dos ventrículos laterais. Sabe-se,
hoje, que os resultados devem-se à secção
das conexões da área pré-frontal com o
núcleo dorso medial do tálamo. Essa cirurgia,
quando realizada em seres humanos, melhorava os sintomas de
ansiedade e depressão dos doentes, os quais entravam
em um estado de “tamponamento psíquico”,
ou seja, deixavam de reagir a circunstâncias que normalmente
determinariam alegria ou tristeza. O método foi largamente
utilizado, entrando em desuso com o aparecimento de drogas antidepressivas.
Uma conseqüência indesejável da leucotomia
frontal era que após a cirurgia, ocorria um déficit
intelectual grave.
Em 1937,
o neuroanatomista James Papez publicou um trabalho famoso “A
proposed mechanism for emotion”. Archives of Neurology,
38 : 725-743”, no qual propunha uma nova teoria para explicar
o mecanismo da emoção, envolvendo as estruturas
do lobo límbico, hipotálamo, e tálamo,
unidas por um circuito hoje conhecido como Circuito de Papez.
O trabalho foi fundamentalmente teórico e especulativo,
embora chamasse a atenção para certos dados clínicos,
como as dramáticas alterações do comportamento
causadas pela raiva (hidrofobia), cujo vírus lesa preferencialmente
o hipocampo.
O termo
“lobo límbico”, foi introduzido na nomenclatura
tendo como base os estudos de anatomia comparativa, creditado
a Broca, que em 1878, falou de “le grand lobe limbique”,
sugerindo que a distinção entre lobo límbico
e rinencéfalo estava longe de ser esclarecida. Hoje,
a distinção anatômica e funcional entre
ambos está bem definida, sendo o rinencéfalo um
termo restrito para indicar apenas estruturas relacionadas diretamente
com a olfação, ou seja: nervo, bulbo e tracto
olfatório, estria olfatória lateral e uncus.
A mais importante
experiência, demonstrando a participação
do sisstema límbico no comportamento e nas emoções,
foi feita por Kluver e Bucy realizando ablação
bilateral da parte anterior dos lobos temporais em macaco Rhesus
lesando algumas estruturas importantes do sistema límbico
como o hipocampo, o giro para-hipocampal e o corpo amigdalóide.
Esta cirurgia resultou na maior modificação do
comportamento de um animal até hoje obtida após
um procedimento experimental, consistindo na sua domesticação,
perversão do apetite, cegueira psíquica, e hipersexualismo.
Essas alterações no comportamento são conhecidas
como Síndrome de Kluver e Bucy, e vieram comprovar a
teoria de Papez para explicar o mecanismo da emoção
envolvendo o lobo límbico.
Recentemente,
a partir de 1990, a psicocirurgia vem demonstrando resultados
favoráveis com a cirurgia estereotáxica, em que
se realiza a cingulotomia para a ansiedade e depressão,
e a capsulotomia anterior ou tractotomia subcaudal para distúrbios
obsessivos compulsivos. Tem também sido utilizado a leucotomia
límbica para o tratamento da esquizofrenia com uma melhora
em 65% dos casos. A radiocirurgia tem sido usada com as vantagens
de ser um procedimento não invasivo para provocar essas
lesões já referidas.
A prática
da psicocirurgia originou problemas de natureza social, ética,
e política, chegando a ser abolida na década de
70 anos nos EUA e atualmente realizada somente em casos selecionados,
refratários ao tratamento clínico. Todos essas
apectos foram discutidos nos últimos anos e ainda têm
ocasionado árduos debates.
Portanto,
qualquer procedimento sobre o cérebro humano que posso
influenciar nas faculdades emocionais, intelectuais e comportamentais,
antes de ser executado deverá ser julgado com cautela.